Seu filho trocou de óculos de novo em menos de um ano? Esse é um dos sinais mais comuns de que a miopia está avançando mais rápido do que o esperado. E não é impressão: hoje, cada vez mais crianças desenvolvem miopia cedo, e o grau tende a aumentar rapidamente durante a fase de crescimento.
A boa notícia é que, diferente do que muitos pais imaginam, hoje existem estratégias específicas para frear esse avanço — o chamado controle de miopia infantil. Não se trata de “curar” a miopia, mas de desacelerar sua progressão, reduzindo o grau final na vida adulta e os riscos associados a graus muito altos.
Sou a Dra. Louise Gonçalves, oftalmologista em Boa Vista, com atuação em oftalmopediatria. Neste texto, explico por que a miopia avança tão rápido em crianças e quais são as opções para controlar essa progressão.
O que é a miopia?
A miopia acontece quando o olho é um pouco mais alongado do que deveria, fazendo com que a luz seja focada antes de chegar à retina. O resultado é a dificuldade de enxergar objetos distantes com nitidez, enquanto a visão de perto costuma permanecer boa.
Em crianças, esse alongamento do olho costuma continuar acontecendo enquanto o corpo ainda está em crescimento, o que explica por que o grau muda com tanta frequência nessa fase — e por que o acompanhamento regular é tão importante.
Quais são os sinais de que a criança pode ter miopia?
- Aproximar muito o rosto de livros, cadernos ou telas
- Semicerrar os olhos para enxergar longe, como a lousa da escola
- Sentar sempre mais perto da televisão
- Reclamar de dor de cabeça após atividades visuais
- Trocar de óculos com grau maior em intervalos curtos, menos de um ano
Esse último ponto merece atenção especial: quando o grau sobe rápido de uma consulta para outra, é sinal de que vale conversar sobre estratégias de controle, e não apenas atualizar a lente do óculos.
Por que controlar a progressão da miopia importa?
Óculos e lentes de contato corrigem a visão embaçada, mas não impedem que o olho continue alongando. Quanto mais alto o grau na vida adulta, maior o risco de complicações associadas à miopia elevada no futuro, como descolamento de retina, glaucoma e degeneração macular miópica.
Por isso, o objetivo do controle de miopia não é só o conforto de enxergar bem hoje, mas reduzir riscos para a saúde ocular ao longo de toda a vida.
Como é feito o controle de miopia?
Existem hoje diferentes recursos que podem ser combinados, avaliados caso a caso conforme a idade da criança, o grau atual e a velocidade de progressão:
- Colírios específicos em baixa concentração, de uso noturno
- Lentes de contato ou óculos com desenho óptico especial para controle de miopia
- Aumento do tempo de atividades ao ar livre, medida simples com evidência de ajudar a desacelerar o avanço
- Ajuste de hábitos visuais, como pausas em atividades de perto e distância adequada de telas
A escolha da estratégia é individual. O acompanhamento com medições regulares do grau e de parâmetros dos olhos é o que permite saber se o plano está funcionando e ajustar o que for necessário.
Quando procurar um oftalmologista?
Vale agendar uma avaliação quando:
- A criança já usa óculos e o grau mudou muito rápido no último ano
- Há histórico de miopia elevada nos pais
- Você notou os sinais comportamentais de dificuldade para enxergar longe
- Quer entender se seu filho é candidato às estratégias de controle
O que você não deve fazer
Não use colírios, óculos genéricos ou qualquer produto de controle de miopia sem indicação médica — a concentração e o tipo de lente precisam ser definidos para cada criança. Também evite achar que “é só esperar a idade passar”: sem acompanhamento, o grau pode seguir subindo sem que ninguém perceba a velocidade da progressão.
Interromper o tratamento por conta própria assim que o resultado parece bom também não é recomendado — o controle de miopia costuma ser conduzido durante toda a fase de crescimento, com revisões periódicas.
Um cuidado que acompanha o crescimento
O controle de miopia não é um tratamento pontual, é um acompanhamento que caminha junto com o crescimento da criança. Quanto antes ele começa, maior a chance de reduzir o grau final na vida adulta e proteger a saúde ocular a longo prazo.
Escrito por Dra. Louise Gonçalves · Oftalmologista · CRM-RR 1269 · RQE 926 · Especialista pelo CBO/AMB, com fellowship em glaucoma e catarata pela Santa Casa de Belo Horizonte.

