Quando se fala em catarata, a imagem que vem à mente costuma ser a de uma pessoa idosa. Por isso, muitos pais se surpreendem — e se assustam — ao saber que um bebê também pode nascer com catarata. A chamada catarata congênita está presente desde o nascimento ou nos primeiros meses de vida do bebê e, embora seja rara, é uma das causas mais importantes de perda de visão evitável na infância.
Diferente da catarata do adulto, que evolui lentamente ao longo de anos, a catarata congênita exige atenção rápida, porque o sistema visual do bebê ainda está se formando.
Sou a Dra. Louise Gonçalves, oftalmologista em Boa Vista, com fellowship em glaucoma e catarata — incluindo casos congênitos — pela Santa Casa de Belo Horizonte. Neste texto, explico o que é a catarata congênita, como é identificada e tratada.
O que é a catarata congênita?
É a opacidade do cristalino presente já ao nascimento ou que surge nos primeiros meses de vida. Pode afetar um olho só ou os dois, e variar bastante em intensidade: desde pequenas opacidades que quase não atrapalham a visão, até casos que bloqueiam praticamente toda a entrada de luz no olho.
As causas variam: pode estar associada a questões genéticas, infecções durante a gestação, síndromes ou alterações metabólicas — mas em boa parte dos casos, nenhuma causa específica é identificada.
Como a catarata congênita é identificada?
A principal porta de entrada é o teste do olhinho, feito ainda na maternidade: quando há uma catarata significativa, o reflexo vermelho normal do olho aparece esbranquiçado ou opaco. Em casos mais sutis, a alteração pode passar despercebida nesse primeiro teste e só ser notada depois.
Sinais que os pais podem perceber em casa incluem um reflexo esbranquiçado recorrente nos olhos do bebê em fotos com flash, olhos que parecem não acompanhar objetos ou rostos, ou movimentos oculares repetitivos e involuntários.
Por que o tratamento precisa ser rápido?
Nos primeiros meses de vida, o cérebro ainda está aprendendo a processar as imagens que recebe dos olhos. Se um olho não recebe estímulo visual adequado nesse período — por causa de uma catarata que bloqueia a luz — o cérebro pode deixar de desenvolver a capacidade de enxergar bem por aquele olho, uma condição chamada ambliopia, ou olho preguiçoso.
Diferente da catarata do adulto, em que a cirurgia pode esperar meses ou anos sem grandes prejuízos, na catarata congênita significativa o tempo é um fator determinante para o resultado visual final.
Como é o tratamento?
Quando a catarata compromete a visão de forma significativa, a cirurgia costuma ser indicada ainda nos primeiros meses de vida, para abrir a janela de desenvolvimento visual o quanto antes. O procedimento remove o cristalino opaco, e a correção óptica após a cirurgia pode ser feita com lente intraocular, óculos ou lentes de contato, dependendo da idade e das características de cada caso.
O tratamento não termina na cirurgia. O acompanhamento continua por anos, incluindo o controle da ambliopia, muitas vezes com uso de tampão ocular (oclusão) no olho mais forte, para estimular o desenvolvimento do olho tratado.
Quando procurar um oftalmologista pediátrico?
- O teste do olhinho veio alterado ou não foi feito na maternidade
- Você percebe um reflexo branco recorrente nos olhos do bebê em fotos
- Os olhos do bebê não parecem acompanhar rostos ou objetos após os primeiros meses
- Há movimentos oculares repetitivos e involuntários
- Existe histórico familiar de catarata congênita
- Aos 3 anos, toda criança deve ter passado pelo menos uma vez no oftalmologista
O que você não deve fazer
Não espere a criança crescer para tratar uma catarata congênita significativa — ao contrário da catarata do adulto, aqui o tempo afeta diretamente o desenvolvimento da visão. Também não ignore um reflexo branco recorrente em fotos achando que é só efeito do flash: vale levar essa observação ao oftalmologista.
Depois da cirurgia, não interrompa o uso do tampão ocular ou dos óculos prescritos por conta própria — esse acompanhamento é o que garante que o olho operado continue se desenvolvendo junto com o outro.
Uma condição rara, mas com janela de tratamento clara
A catarata congênita é rara, mas quando identificada e tratada dentro da janela certa, os resultados costumam ser muito bons. O teste do olhinho e as consultas de rotina da infância são exatamente o que permite pegar essa condição a tempo — antes que ela afete o desenvolvimento visual da criança.
Escrito por Dra. Louise Gonçalves · Oftalmologista · CRM-RR 1269 · RQE 926 · Especialista pelo CBO/AMB, com fellowship em glaucoma e catarata pela Santa Casa de Belo Horizonte.


